Integrantes do MPSP acreditam que informações que Beto Louco propõe entregar poderiam ser obtidas pelas investigações de outras formas
A proposta de colaboração de Beto Louco é negociada pelo advogado do empresário com integrantes dos Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos) de São José do Rio Preto, Piracicaba e Guarulhos, e com o procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira, chefe do MPSP.
A delação premiada é um instrumento legal por meio do qual um investigado confessa sua participação em um crime e denuncia outros integrantes de organização criminosa, apresentando elementos de corroboração, em troca de benefícios legais. A colaboração deve ser voluntária e, em essência, entregar integrantes do andar de cima na hierarquia da organização.
O Metrópoles apurou que, entre os itens que constam na proposta apresentada pelo empresário, mantida em sigilo, estão o envolvimento de servidores e magistrados, além da devolução de quase R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Seriam pelo menos R$ 400 milhões de ressarcimento ao erário e R$ 500 milhões em prestação pecuniária (pagamento para reparação de danos às vítimas).
O entendimento dos promotores é que Beto Louco estaria entregando informações já obtidas pelos investigadores, ou que poderiam ser obtidas por meio de outras fontes. O investigado teria admitido as fraudes tributárias, mas sem confirmar que lavou dinheiro para o PCC, como apontam as investigações.
Servidores citados por ele na proposta de delação já teriam sido alvo de outras investigações, e a proposta não menciona agentes com foro privilegiado em Brasília.
Procurado pela reportagem, o advogado Guilherme San Juan, que representa Beto Louco, afirmou que as tratativas sobre o acordo de colaboração são sigilosas e que, por isso, não poderia dar detalhes. Ele disse apenas que a investigação que deu origem à Operação Carbono Oculto não teria elementos para comprovar a relação de seu cliente com a maior facção criminosa do país.
A decisão final sobre a celebração do acordo caberá ao procurador-geral Paulo Sérgio, que foi reconduzido ao cargo nesta terça-feira (14/4) pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), após ser o mais votado na eleição interna do MPSP. Ao Metrópoles ele afirmou que a proposta está em análise.
Quem é Beto Louco
- Roberto Augusto Leme, conhecido como Beto Louco, negocia o acordo de delação premiada à distância, por meio de seus advogados, já que está foragido desde agosto do ano passado.
- Em paralelo às tratativas com o MPSP, o empresário tentou um acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), que não avançou supostamente por falta de provas.
- De acordo com as investigações da Operação Carbono Oculto, do MPSP, e da Operação Tank, da Polícia Federal (PF), Beto Louco e seu sócio, Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, utilizavam a formuladora de combustíveis Copape e a distribuidora Aster, adquiridas em 2020 por R$ 52 milhões, para lavar dinheiro para o PCC e fraudar créditos tributários.
- As autoridades afirmam que o grupo dominava toda a cadeia de produção, desde as usinas de etanol até postos de gasolina por todo o país. Para baratear a produção, o grupo adulterava os combustíveis com a adição de metanol.
- Os investigadores dizem, inclusive, que criminosos do PCC foram responsáveis por achacar donos de postos de combustíveis independentes para vender seus estabelecimentos para a organização criminosa, sob ameaça de morte.




