Benedita Cipriano Gomes foi uma mulher mística e revolucionária, permeada de eventos históricos e de lendas. Em 1925, militares foram até o povoado em que vivia com os seguidores para prendê-la.
A história de Benedita Cipriano Gomes, conhecida por curar enfermos, participar de revoluções políticas e criar um povoado, é permeada de eventos históricos e de lendas, em Lagolândia, a cerca de 40 km de Pirenópolis. Santa Dica de Goiás, nome que passou a ser referenciada, sobreviveu a um batalhão de homens e desapareceu por três dias. Esse episódio ficou conhecido como o “Dia do Fogo”.
Ao g1, a historiadora e autora do livro “Santa Dica: História e Encantamentos”, Waldetes Aparecida Rezende, de 64 anos, contou que o ocorrido possui mais de uma versão. No povoado, a maioria relatou que cerca de cem homens, militares e jagunços de coronéis da região, invadiram o povoado e “metralharam as casas”.
Os moradores já haviam sido avisados por Dica de que “choveria pedras do céu”, mas eles seriam protegidos por “anjos”.
Do outro lado, está a versão dos militares. Em 10 de outubro de 1925, a Promotoria Pública abriu um processo criminal contra Dica e alguns de seus seguidores. Dois dias depois, uma guarnição com 79 homens, foi até o local cumprir os mandados de prisão.
Eles foram indiciados por crimes baseados no Código Penal vigente, um deles era “praticar o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio ou amor, incular curas de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim, para fascinar e subjugar a credulidade pública”.
Após o ocorrido, o vestido de Dica foi guardado cheio de furos. Dizem as lendas de que quando os soldados receberam ordens para atirar viram nos galhos de uma gameleira três “anjos”, que não eram atingidos pelos disparos.
Em 22 de outubro de 1925, após se recuperar dos dias perdida no mato, a mulher se apresentou voluntariamente e se declarou inocente das acusações. Ela foi condenada a uma pena de um ano e dois meses de prisão, mas acabou cumprindo apenas alguns meses, na Cidade de Goiás, devido a pressão por parte dos seguidores e a repercussão do ataque e das mortes que ocorreram no local.
Em junho de 1926, ela foi solta com o compromisso de que seria levada pela Confederação Espírita do Rio de Janeiro. Meses depois, Dica retornou ao estado acompanhada do jornalista Mário Mendes, com quem se casou e criaram sete filhos, sendo cinco frutos do relacionamento do casal.
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Em 13 de abril de 1905, na fazenda Mozondó, nasceu a menina que se tornaria uma figura emblemática, alvo de ceticismos e de devoções. Já no nascimento, foi marcado o início de uma história repleta de acontecimentos surpreendentes, pois ela foi considerada morta pela primeira vez – outras três ainda viriam, o que hoje a medicina entende como catalepsia, mas na época foram ressuscitações.
De acordo com o livro “Santa Dica: História e Encantamentos”, após 24 horas do seu nascimento, quando a família enlutada se preparava para sepultar o corpo da bebê, ouviram um choro e perceberam: ela estava viva. Por serem devotos fervorosos de São Benedito, a filha do casal ganhou o mesmo nome do santo: Benedita.
Embora nunca tenha se considerado uma “santa”, foi assim que Dica ficou popularmente conhecida. A historiadora ressaltou que inicialmente essa denominação veio cheia de ceticismo dos jornais da época que noticiavam os diversos relatos de que ela curava pessoas e conversava com “anjos” e guias espirituais, como Rainha Silvéria, José Sueste, também chamado de Rei-de-Valia, e o comandante José Gregório, que foi morto em batalha.
“Na verdade, ela nunca se denominou santa e nem o povo. Era até uma forma de crítica, que os jornais a chamavam assim. A maioria era pejorativo, principalmente aqui no estado de Goiás”, ressaltou Waldetes.



